sábado, 31 de maio de 2014

Wilson Bueno: Borboletas

Hoje. 31 de Maio de 2014. Há 4 anos o escritor e jornalista paranaense Wilson Bueno foi brutalmente assassinado. Em 1 de Abril de 2014 seu assassino confesso foi inocentado.

Trabalhei com Wilson Bueno durante cinco anos (1990-1995), como editor gráfico do Jornal NICOLAU. Com o fim do jornal, Wilson Bueno se dedicou à crítica literária e à sua literatura, reconhecida nacional e internacionalmente, para a frustração (e inveja mortal!) de “escritores” medíocres que, sem talento e estilo, e não conseguindo ir além do seu diminuto quintal, buscam difamá-lo.

Em 13 de Março de 2014, quando Wilson Bueno completaria 65 anos, ao selecionar alguns textos breves, do seu raríssimo Manual de Zoofilia¹, encontrei, além dos que postei, estes três: Anjos, Borboletas, Moscas, que, sei lá, me pareceram premonitórios. E muito bem direcionados!



BORBOLETAS
Wilson Bueno

Nada aprendemos com elas que não seja o voo fugaz da flor tocada pelo vento, pluma, se a borboleta é azul e fere a manhã incendiada de sonetos. Nenhuma rima contudo, mesmo a mais rara, capaz de captar, num dia ateu, o terror do êxtase.
Tem sido assim o jeito que vamos, marcados para morrer no esplendor do sinistro, essa vida alheada, essa vida breve cuja duração posso medir, acho que posso, só com olhar o mostrador do meu relógio, e antever a tua cara rindo, a loucura feroz do tempo em nós andando.
Uma borboleta só não basta para atear cor ao vasto céu das tardes melancólicas da floresta.


1. Manual de Zoofilia é uma rara edição artesanal de apenas 350 exemplares, editado na primavera de 1991, pela Editora Noa Noa, do escritor e tipógrafo Cleber Teixeira (1938-2013). O opúsculo traz trinta textos curtos de um fascinante tratado poético sobre a fauna. Link para a postagem anterior: Pardais, Corroíras, Colibris.

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Ilustração de Joba Tridente – 2014


Wilson Bueno (1949-2010): escritor, cronista e jornalista. Um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Entre as suas principais obras estão: Bolero's Bar (1986); Manual de Zoofilia (1991); Mar Paraguayo (1992); Pequeno Tratado de Brinquedos (1996); Meu Tio Roseno, a Cavalo (2000); Amar-te a ti nem sei se com carícias (2004); Pincel de Kyoto (2007); A Copista Kafka (2007); Mano, A noite Está Velha (2011).

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Wilson Bueno: Anjos

Amanhã. 31 de Maio de 2014. Há 4 anos o escritor e jornalista paranaense Wilson Bueno foi brutalmente assassinado. Em 1 de Abril de 2014 seu assassino confesso foi inocentado.

Trabalhei com Wilson Bueno durante cinco anos (1990-1995), como editor gráfico do Jornal NICOLAU. Com o fim do jornal, Wilson Bueno se dedicou à crítica literária e à sua literatura, reconhecida nacional e internacionalmente, para a frustração (e inveja mortal!) de “escritores” medíocres que, sem talento e estilo, e não conseguindo ir além do seu diminuto quintal, buscam difamá-lo.

Em 13 de Março de 2014, quando Wilson Bueno completaria 65 anos, ao selecionar alguns textos breves, do seu raríssimo Manual de Zoofilia¹, encontrei, além dos que postei, estes três: Anjos, Borboletas, Moscas, que, sei lá, me pareceram premonitórios. E muito bem direcionados!

  

A N J O S
Wilson Bueno

Te oferecerei um anjo morto dentro de uma mala, igual que um mágico de sua ilusão sozinha, igual que um SS, botas, tacões, mausers geladas, igual que um pária, uma mãe demente que carregasse o filho afogado no colo, igual que um pinel, um ente do abismo, igual que este que aqui vai, bambo e noturno, 0 paletó amassado da noite em que regressa, igual que um chaplin, o projeto sempre adiado de que um dia, quem sabe, venha a se tornar, de si, um vagabundo, igual que esta mesa em que você me abandonou de borco, anjo, com copos de campari por todos os lados, igual que um bolero, anjo, feito do bofetões, solidão e trapaça, igual que.

1. Manual de Zoofilia é uma rara edição artesanal de apenas 350 exemplares, editado na primavera de 1991, pela Editora Noa Noa, do escritor e tipógrafo Cleber Teixeira (1938-2013). O opúsculo traz trinta textos curtos de um fascinante tratado poético sobre a fauna. Link para a postagem anterior: Pardais, Corroíras, Colibris.

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Ilustração de Joba Tridente – 2014

Wilson Bueno (1949-2010): escritor, cronista e jornalista. Um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Entre as suas principais obras estão: Bolero's Bar (1986); Manual de Zoofilia (1991); Mar Paraguayo (1992); Pequeno Tratado de Brinquedos (1996); Meu Tio Roseno, a Cavalo (2000); Amar-te a ti nem sei se com carícias (2004); Pincel de Kyoto (2007); A Copista Kafka (2007); Mano, A noite Está Velha (2011).

sábado, 24 de maio de 2014

Couto Magalhães: Como a noite apareceu

Céu e Terra. O Infinito e Além. Quem nunca questionou a origem de todas as coisas e até de si mesmo? Em sua introdução ao Contos Populares do Brasil 2 (1897), Silvio Romero fala de dois contos sobre a separação do Céu e da Terra. Um deles é o neozelandês Filhos do Céu e da Terra. O segundo é Como a noite apareceu, recolhido por Couto Magalhães e que se encontra originalmente em O Selvagem (1876), fascinante Curso de Língua Tupi viva ou Nheengatú.

Optei pela versão (com breve introdução) de Magalhães porque a que se encontra na edição (que tenho) de Romero está incompleta e com erros. Esta é apenas a versão portuguesa. Digitalizar a versão tupi é muito complicado. Atualizei rapidamente a grafia.


Couto Magalhães: Esta lenda é provavelmente um fragmento do Gênesis dos antigos selvagens sul-americanos. É talvez o eco degradado e corrompido das crenças que eles tinham, do como se formou esta ordem de cousas no meio da qual nós vivemos, e, despida das formas grosseiras com que provavelmente a vestiram as avós e as amas de leite, ela mostra que por toda a parte o homem se propôs resolver este problema - de onde é que nós viemos? Aqui, como nos Vedas, como no Gênesis, a questão é no fundo resolvida pela mesma forma, isto é: no principio todos eram felizes; uma desobediência n’um episódio de amor, uma fruta proibida, trouxe a degradação. A lenda é, em resumo, a seguinte: no principio não havia distinção entre animais, o homem e as plantas; tudo faltava. Também não havia trevas. Tendo a filha da Cobra Grande se casado, não quis coabitar com o seu marido enquanto não houvesse noite sobre o mundo, assim como havia no fundo das águas. O marido mandou buscar a noite, que lhe foi remetida encerrada dentro de um caroço de tucumã, bem cerrado, com proibição expressa aos condutores de que o abrissem, pena de perderem-se a si e a seus descendentes, e a todas as cousas. A princípio resistem à tentação, mas depois, a curiosidade de saber o que havia dentro da fruta os fez violar a proibição, e assim se perderam. Substituindo a fruta de tucumã pela árvore proibida, a curiosidade de saber pela tentação do espirito maligno; parece-me haver no fundo do episódio tanta semelhança com o pensamento asiático que vacilo e pergunto se não será um eco degradado e transformado desse pensamento?

  

COMO A NOITE APARECEU
MAI PITUNA OIUQUAU ÃNA

No princípio não havia noite; dia somente havia em todo tempo. A noite estava adormecida no fundo das águas. Não havia animais; todas as coisas falavam.
A filha da Cobra Grande, contam, casara-se com um moço.
Este moço tinha três fâmulos fiéis. Um dia ele chamou os três fâmulos e lhes disse: - Ide passear, porque minha mulher não quer dormir comigo.
Os fâmulos foram-se, e então ele chamou sua mulher para dormir com ele. A filha da Cobra Grande respondeu-lhe:
- Ainda não é noite.
O moço disse-lhe: - Não há noite, somente há dia.
A moça falou: - Meu pai tem noite. Se queres dormir comigo, manda buscá-la lá, pelo grande rio.
O moço chamou os três fâmulos; a moça mandou-os à casa de seu pai para trazerem um caroço de tucumã.
Os fâmulos foram, chegaram à casa da Cobra Grande, esta lhes entregou um caroço de tucumã muito bem fechado, e disse-lhes: -  Aqui está; levai-o. Eia! não o abrais, senão todas as coisas se perderão.
Os fâmulos foram-se, estavam ouvindo barulho dentro do coco de tucumã, assim: tem, ten, ten... xi... (*) era o barulho dos grilos e dos sapinhos que cantam de noite.
Quando já estavam longe, um dos fâmulos disse a seus companheiros: - Vamos ver que barulho será este?
O piloto disse: - Não, do contrário nos perderemos. Vamos embora, eia, rema!
 Eles foram-se e continuaram a ouvir aquele barulho dentro do coco de tucumã e não sabiam que barulho era.
Quando já estavam muito longe, ajuntaram-se no meio da canoa, acenderam fogo, derreteram o breu que fechava o coco e o abriram. De repente tudo escureceu.
O piloto então disse: - Nós estamos perdidos; e a moça, em sua casa, já sabe que nós abrimos o coco de tucumã! Eles seguiram viagem.
A moça, em sua casa, disse então a seu marido: - Eles soltaram a noite; vamos esperar a manhã.
Então todas as coisas que estavam espalhadas pelo bosque, se transformaram em animais e em pássaros.
As coisas que estavam espalhadas pelo rio, se transformaram em patos e em peixes. Do paneiro gerou-se a onça; o pescador e a sua canoa se transformarão em pato; de sua cabeça nascerão a cabeça e bico do pato; da canoa o corpo do pato; dos remos as pernas do pato.
A filha da Cobra Grande, quando viu a estrela-d’alva, disse a seu marido:
- A madrugada vem rompendo. Vou dividir o dia da noite.
Então ela enrolou um fio, e disse-lhe: - Tu serás cujubim. Assim, ela fez o cujubim; pintou a cabeça do cujubim de branco, com tabatinga; pintou-lhe as pernas de vermelho com urucu, e então disse-lhe: - Cantarás para todo sempre, quando a manhã vier raiando.
Ela enrolou o fio, sacudiu cinza em cima dele, e disse: - Tu serás inambu, para cantar nos diversos tempos da noite, e de madrugada.
De então para cá todos os pássaros cantaram em seus tempos, e de madrugada para alegrar o princípio do dia.
Quando os três fâmulos chegaram, o moço disse-lhes: - Não fostes fiéis; abristes o caroço de tucumã, soltastes a noite e todas as coisas se perderam, e vós também que vos metamorfoseastes em macacos, andareis para todo o sempre pelos galhos dos paus.
(A boca preta, e a risca amarela que eles têm no braço, dizem que é ainda o sinal do breu que fechava o caroço de tucumã, que escorreu sobre eles quando o derreteram.)

(*) Quando os selvagens narram esta parte imitam o zumbido dos insetos que cantam à noite.


Silvio Romero: É esta a lenda; comparem-na com a neozelandesa. Dentre os contos indígenas alguns passaram às populações cristãs do país e outros não. Daquele transcrito não encontramos vestígios na tradição que consultamos. O mesmo deve ter acontecido a muitos contos africanos e por certo a alguns portugueses: não passaram às nossas populações atuais. Mas não é somente nas canções e contos populares que se encerra tudo o que devemos às três raças que habitam o país.


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Ilustração de Joba Tridente (2014) 


José Vieira Couto Magalhães nasceu em Diamantina (MG) em 1837 e morreu no Rio de Janeiro (RJ) em 1898. Foi escritor, folclorista, militar, político. Estudou no Seminário de Mariana; Academia Militar do Rio de Janeiro; Artilharia de Campanha de Londres. Em 1859 concluiu o curso de Direito, pela Faculdade de Direito de São Paulo, doutorando-se em 1860. Couto Magalhães falava inglês, francês, alemão, italiano, tupi. É autor de: Viagem ao rio Araguaia (1863); O Selvagem (1876); Ensaios de Antropologia (1894).

Silvio Romero: Filhos do Céu e da Terra

Céu e Terra. O Infinito e Além. Quem nunca questionou a origem de todas as coisas e até de si mesmo? Em sua introdução ao Contos Populares do Brasil 2 (1897), Silvio Romero fala de dois contos sobre a separação do Céu e da Terra. Um deles é o neozelandês Filhos do Céu e da Terra. O segundo é Como a noite apareceu, recolhido por Couto Magalhães e que se encontra originalmente em O Selvagem (1876), fascinante Curso de Língua Tupi viva ou Nheengatú.

Sílvio Romero: (...) O mito cósmico dos nossos índios, com que explicam a separação do dia e da noite, tem bastante analogia com a lenda da Nova Zelândia, que da conta da separação do Céu e da Terra. O mito neozelandês é mais épico e formoso; em ambos, porém, procura-se explicar a distinção de dois fenômenos capitais; em ambos fala-se de esposos que estavam ou vieram a ficar separados, e trata-se de uma revolta ou desobediência. Citemo-los para estudo comparativo, segundo as lições de Couto de Magalhães e de Tylor. O mito cósmico neozelandês intitula-se os Filhos do Céu e da Terra, e é como segue.



FILHOS DO CÉU E DA TERRA

De Ranci (0 Céu) e de Papa (a Terra) saíram todos os homens e todas as coisas. Mas o Céu e a Terra se uniram e a noite se estendeu sobre eles e - sobre tudo que deles tinha saído, até que um dia seus filhos reuniram-se em conselho para saber se era preferível separar os seus pais ou matá-los. Então Tane-Mahuta, pai das florestas, disse a seus cinco grandes irmãos: “- É melhor separá-los, colocar o Céu sobre nossas cabeças e a Terra sob nossos pés. Deixemos o Céu tornar-se para nós estranho, mas a Terra deverá ficar perto de nós como a mãe que nos amamentou.” Então Rugo-Ma-Tane se levanta e procura separar o Céu e a Terra; insiste, mas debalde; vãos foram também os esforços de Tangaroa, pai dos peixes e dos répteis, e de Haumia-Tikitiki, pai das plantas selvagens, e de Tu-Matuenga, deus e pai dos homens intrépidos. Tane-Mahuta, deus e pai das florestas, se levanta e por sua vez, com toda a calma de sua força, luta corpo a corpo com seus pais, procurando separá-los com suas mãos e braços. Enfim, para; sua cabeça fica fortemente presa à sua mãe, a Terra; levanta os pés para repelir seu pai, o Céu, e estende o seu dorso e braços com supremo esforço. Ranci e Papa foram finalmente separados, e fizeram ouvir gritos entrecortados de prantos e ameaças. Tane-Mahuta não para, aperta em torno de si a Terra com todas as suas forças e levanta o Céu com a mesmo energia. Mas Tawir-che-Matéia, pai dos ventos e tempestades, nunca lhe tinha consentido que sua mãe fosse arrancada de seu esposo; e levantou-se então em seu seio um terrível desejo de lutar contra seus irmãos.

O deus das tempestades se levantou portanto e acompanhou seu pai para o reino superior; a fim de achar um abrigo profundo nos céus sem limites e ocultar-se aí para sempre. Acompanhou-o toda a sua linhagem: os ventos poderosos, as furiosas rajadas, as nuvens espessas, sombrias, ardentes, turbilhonando com raiva, estourando com furor. Quando se acharam todos reunidos o pai no meio deles precipita-se sobre o inimigo, Tane-Mahuta, e suas florestas gigantescas, que estavam tranquilas, nada desconfiando, quando de repente o formidável furacão se desencadeou sobre elas. Árvores enormes se quebraram como vidro; por todas as partes ficaram ramos e troncos despedaçados, presa futura dos vermes e dos insetos. Então, o pai das tempestades arroja-se às ondas e chicoteia as águas até que elas se levantem em vagas escumosas à altura das montanhas; Tangaroa, deus do oceano e pai de tudo que nele habita, foge atemorizado para os confins de seu império. Seus filhos, Íkatere, pai dos peixes, e Tu-te-wehi-wehi, pai dos répteis, procuram onde abrigar-se com segurança. “- Eia depressa, salvemo-nos todos no mar!”, brada o pai dos peixes. “- Não, não; fujamos antes para a terra!”, grita de seu lado o pai dos répteis. Estes entes separaram-se, portanto; ao passo que os peixes se refugiaram no mar; os répteis procuravam um abrigo nas florestas e nos ervaçais. Mas o deus do mar, Tangaroa, furioso porque os répteis, seus filhos, o tinham abandonado, depois fez sempre a guerra a seu irmão Tane, que os acolhera em seus bosques. Tane responde a seus ataques, fornecendo a seu irmão Tu-Matuenga, pai dos homens intrépidos, canoas, lanças e arpões feitos de madeira de suas árvores, e cordas tecidas com as fibras de suas plantas, para destruir os peixes, filhos do deus do mar; o deus do mar, para vingar-se do deus das florestas, engole as canoas com as suas vagas, inunda as arvores e as casas, e as carrega para o oceano sem fim. O deus das tempestades volveu depois sua cólera contra seus irmãos, os deuses das plantas selvagens e das cultivadas; mas Papa (a Terra) as ocultou tão perfeitamente em seu seio, que o deus das tempestades as procurou em vão. Ele arrojou-se então contra o último de seus irmãos, o pai dos homens intrépidos; não o pôde porém abalar, apesar de todos os seus esforços. Que era para Tu-Matuenga a cólera de seu irmão? Não havia sido ele que pensara em destruir todos os seus parentes? Não se tinha ele mostrado valente e temerário durante a guerra? E, entretanto, tinham os seus irmãos recuado diante do ataque terrível do deus das tempestades e de seus filhos? O deus das florestas e sua família tinham sido estrangulados; o deus do mar e seus filhos se tinham refugiado nas profundezas do oceano ou escondido nos abrigos da costa; os deuses das plantas cultivadas e selvagens tinham evitado o perigo, ocultando-se; o homem, porém, ficava de pé, impassível, apoiado em sua mãe, a Terra.

Pouco a pouco acalmaram-se os céus, a tempestade, e sua cólera dissipou-se. Tu-Matuenga, pai dos homens intrépidos, pôs-se a imaginar como poderia vingar-se de seus irmãos que o tinham abandonado, quando ele teve de resistir ao deus das tempestades. Fabricou laços com as folhas do whanaka; os pássaros e as feras, filhos de Tane, deus das florestas, caíram em seu poder, fez cordas com o linho e trouxe à praia os peixes, filhos de Tangaroa, deus do mar. Foi procurar em seu abismo subterrâneo os filhos de Rugoma-tane, a batata e todas as plantas cultivadas; o mesmo fez aos filhos de Haumia-Tikitiki, a raiz das ervas e todas as plantas selvagens, desenterrou-as e fê-las secar ao sol. E, todavia, vencidos seus quatro irmãos e postos a seu serviço, não pôde triunfar do quinto; Tawir-che-Matéa, deus das tempestades, não cessa de atacá-lo, dirige contra ele os temporais e furacões e procura destruí-lo no mar e na terra. A cólera indomável do deus das tempestades contra seus irmãos teve como resultado o desaparecimento da Terra debaixo das águas. Os deuses antigos que assim submergiram a Terra, chamavam-se a Chuva terrível, a Chuva de longa duração, a Saraiva violenta, as Cerrações, o Orvalho abundante e o Orvalho tênue; só uma parte diminuta da Terra escapou a invasão das águas.

Por fim a luz resplandecente aumentou o mundo, e os seres que tinham ficado ocultos entre Ranci e Papa, antes de sua separação, se multiplicaram então sobre a Terra. Ate hoje o vasto Céu ficou separado de sua esposa, a Terra; mas seu amor recíproco continua: os doces, os ardentes suspiros do terno coração da esposa elevam-se constantemente para o esposo; escapam-se das montanhas e dos vales, e os homens, em sua ingenuidade, os denominam vapores; o vasto Céu, durante as longas e tristes noites passadas longe de sua amada, chora frequentes lágrimas sobre seu seio, lágrimas que os homens chamam gotas de orvalho.


Sílvio Romero: Belíssimo episódio cósmico de um povo selvagem e quase desconhecido!... Vejamos o mito tupi. Couto de Magalhães intitula-o - Como a noite apareceu (link no título).

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Ilustração de Joba Tridente (2014)


Silvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (1851 - 1914): escritor, ensaísta, crítico literário, professor, filósofo. Romero foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras em 1897 e escreveu para diversos jornais.  Silvio Romero é, entre outras obras, autor de: A poesia contemporânea e a sua intuição naturalista (1869); Contos do fim do século (1878); A filosofia no Brasil (1878); A literatura brasileira e a crítica moderna (1880);  Cantos Populares do Brasil - vol. 1 e 2 (1883); Contos Populares do Brasil (1885); História da literatura brasileira, I e II (1888); A poesia popular no Brasil (1880);  Compêndio da História da Literatura Brasileira (1906).

domingo, 11 de maio de 2014

Gibran Khalil Gibran: O Bem e o Mal

Em 1986 ganhei o livro O Louco, de Gibran Khalil Gibran, com tradução de Mansour Challita, em edição da Associação Cultural Internacional Gibran - ACIGI. O Bem e o Mal é uma entre as 18 Pérolas do belo opúsculo.

O Bem e o Mal

O Deus do Bem e o Deus do Mal encontraram-se no cume de uma montanha.
O Deus do Bem disse: “Bom dia para ti, irmão.”
O Deus do Mal não respondeu.
E o Deus do Bem disse: “Estás hoje de mau humor.
Sim”, disse o Deus do Mal, “Porque recentemente tenho sido muitas vezes confundido contigo, chamado pelo teu nome e tratado como se fosse tu, e isto não me agrada.
E o Deus do Bem disse: “Mas eu também tenho sido confundido contigo e chamado pelo teu nome.
E o Deus do Mal foi-se embora, amaldiçoando a estupidez do homem.

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Ilustração: Joba Tridente.2014


Gibran Khalil Gibran (1883 - 1931) foi um dos maiores autores da literatura libanesa. O Profeta, onde se encontra o fascinante texto Os Filhos, é a sua obra mais conhecida. Seus livros, traduzidos no Brasil por Mansour Challita, refletem a sua profunda religiosidade e o seu caráter pacifista. Gibran é autor, entre outros, de: O Louco; O Errante; Asas Partidas; Jesus, o Filho do Homem; Areia e Espuma; Temporais; Parábolas; As Ninfas do Vale; O Jardim do Profeta; As Almas Rebeldes; A Música.

Cecília Meireles: Orfandade

Hoje, no Dia das Mães, a beleza melancólica de Orfandade, poema de Cecilia Meireles..., do seu livro Viagem, de 1939.



O R F A N D A D E

A menina de preto ficou morando atrás do tempo,
sentada no banco, debaixo da árvore,
recebendo todo o céu nos grandes olhos admirados.
Alguém passou de manso, com grandes nuvens no vestido,
e parou diante dela, e ela, sem que ninguém falasse,
murmurou: "A MAMÃE MORREU".
Já ninguém passa mais, e ela não fala mais, também.
O olhar caiu dos seus olhos, e está no chão, com as outras pedras,
escutando na terra aquele dia que não dorme
com as três palavras que ficaram por ali.

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Ilustração de Joba Tridente - 2014



Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro, 1901 – Rio de Janeiro, 1964). Escritora, professora e jornalista. Em 1919, aos 18 anos, publicou Espectro, o seu primeiro livro de poesia. Cecília Meireles é autora de uma vasta obra onde se destacam: Criança, meu amor (1923), Nunca Mais (1923), Poema dos Poemas (1923). Batuque, Samba e Macumba (1933), A Festa das Letras (1937), Viagem (1939), Olhinhos de Gato (1940), Vaga Música (1942), Problemas de Literatura Infantil (1950), Romanceiro da Inconfidência (1953), Solombra (1963), Poemas de Israel (1963), Ou Isto Ou Aquilo (1964).

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Marquês de Paranaguá: O Rio e O Regato

Em Outubro de 2012, na Semana da Criança, postei a fábula O Cão e o Tamanduá, do Doutor Anastácio Luiz do Bomsucesso, que encontrei no curioso livro Florilegio Brasileiro da Infancia - editado pela Livraria Clássica do Editor Nicoláo-Alves, em 1874, e disponibilizado em versão digital pela Brasiliana USP. Em tempos de excesso e de falta de água, volto ao Florilegio para postar uma bela Alegoria: O Rio e O Regato, assim definida:A alegoria é uma poesia solta ou incluída em outra, na qual, com uma ação fantástica e com sujeitos e objetos de natureza estranha, se pintam fatos e ações próprias dos homens.” O Rio e O Regato é de autoria de Marquez de Paranaguá. Atualizei rapidamente a grafia.


O RIO E O REGATO
Marquez de Paranaguá *

A um manso regato um dia
Soberbo rio dizia:
Desgraçado, eu te lamento,
Em teu curso pobre e lento;
Pois fazendo voltas tantas
Por entre rasteiras plantas,
Corres sem nome, escondido,
Entanto que eu conhecido
Nas cidades mais formosas,
Minhas ondas copiosas
Meto, levando abundância
A mais remota distancia.
Cem regatos orgulhosos
De minha aliança, ansiosos,
Se vêm meter no meu seio
Sem fazer um só rodeio.
Demais, eu tenho coragem,
E nada em minha passagem
Encontro, que eu não arrede.
Disse; e ainda mais falara,
Quer da sua origem rara,
Quer das suas qualidades,
Quando a tais fatuidades,
Mais sábio, o pobre regato
Lhe responde, e mui pacato:
Que, amigo! da matriz
Ou lago d'onde saís,
Não tenho eu também saído?
Logo depois de nascido
Um e outro n'esta selva,
Debaixo da mesma relva,
Nossas águas não correram?
D'onde é pois, que vos vieram
Tantos fumos de altivez ?
Só o acaso é que nos fez,
Deixando o materno berço,
Correr por lugar diverso.
Vós em terreno inclinado
Caminhais mais apressado,
Absorvendo estes ribeiros
Que em vós se metem ligeiros,
Vossas águas engrossando.
Eu ao longo costeando
Estas formosas colinas,
Minhas águas cristalinas
Conduzo tranquilamente;
Mas por isto, francamente,
Julgais ser mais do que eu, nobre?
E verdade que mais pobre
Eu sou d'agua; porém ela
Não é clara, pura e bela?
Vós causais o medo e espanto
Por onde passais; entanto
Que eu com murmúrio sereno,
Regando mais de um terreno,
Fertilizo estas campinas
Sem causar essas ruínas,
Que por vós causadas vejo;
Antes sempre benfazejo:
Até que a minha corrente
Se confunda, finalmente
N'esse mar vasto e profundo,
Onde um dia, sem segundo,
Tocando os mesmos extremos
Ambos juntar-nos devemos.

*
Ilustração de Joba Tridente - 2014

* Não tenho certeza, mas acredito que Marquez de Paranaguá seja João Lustosa da Cunha Paranaguá (1821-1912), 2º visconde e marquês de Paranaguá. Conforme o Ensaio Biográfico de Chico Castro, editado pela Câmara dos Deputados - Brasília, em 2009, ele “atuou durante quarenta anos na política, de 1850 à implantação da República, em 1889. Deputado à Assembleia Geral de 1850 a 1864, foi eleito, em 1865, senador vitalício, cargo que ocupou até à queda do Império. Entrelaçou a atividade parlamentar com a de presidente das províncias do Maranhão, Pernambuco e Bahia e a de ministro do imperador D. Pedro II, tendo sido titular das pastas da Justiça, da Guerra, da Fazenda, além de ter presidido o Conselho de Ministros. Nomeado conselheiro de Estado, foi ainda ministro dos Negócios Estrangeiros”. A minha dedução vem do sumário do Ensaio Biográfico: Paranaguá e a seca de 1877; Paranaguá e o porto de Amarração; Navegação do rio Parnaíba; Navegação a vapor no rio Parnaíba; A seca no Nordeste.  Há também o militar e político Francisco Vilela Barbosa, o 1º visconde e marquês de Paranaguá (1769-1846). É o que sei sobre o nome do autor.

sábado, 3 de maio de 2014

Gaspar da Silva: Alexandre Herculano e Guerra Junqueiro

Esta divertida crônica do jornalista e escritor Gaspar da Silva, envolvendo Herculano e Junqueiro, encontrei no Almanach Popular para 1878, edição Brasiliana USP.



Alexandre Herculano e Guerra Junqueiro
Gaspar da Silva

Os jornais têm publicado ultimamente diversos episódios da vida do primeiro historiador e filósofo português.
Todos esses fatos trazidos pela imprensa ao conhecimento publico tendem a demonstrar a inabalável austeridade de caráter e a sisudez do inspirado artista, que cinzelou a colossal e assombrosa estátua de Eurico.
Entretanto, Herculano, fora das suas horas de concentração, era jovial e faceto, como o revela a seguinte anedota:

Guerra Junqueiro, ao concluir o seu notável poema A Morte de D. João, lembrou-se, muito naturalmente, de o dedicar ao grande escritor.
Pediu cartas de apresentação e dirigiu-se a Vale de Lobos, onde Herculano o recebeu com benevolência e afabilidade extremas.
Junqueiro chegara de noite a Vale de Lobos, não obstante o cansaço da jornada, prolongou até ao amanhecer a leitura do poema.
Herculano, costumado a deitar-se muito cedo, sofria, aparentemente resignado, mas intimamente constrangido, o suplício que o imaginoso poeta lhe quis infligir.
No dia imediato, Junqueiro ouvia da boca do venerando mestre a mais lisonjeira opinião acompanhada do consentimento para a dedicatória.
- Regresso a Lisboa hoje mesmo e vou cheio de orgulho, disse Junqueiro.
- Não, acudiu Herculano; o meu amigo há de permitir que eu lhe mostre também as minhas obras novas. Demore-se até amanhã.
Toda a gente supunha que Herculano possuía preciosos trabalhos inéditos e Junqueiro pensou desde logo no grande triunfo que colheria sendo o primeiro a revelar e a falar dos escritos que o autor da Historia de Portugal não mostrara aos mais íntimos amigos.
Ficou.
Herculano pediu o braço ao jovem revolucionário e lá foram os dois para a formosa quinta, em alegre conversação.
Chegados à horta, Herculano mostrou a Junqueiro a grande variedade de hortaliças, os rotundos repolhos, as belas couves, dizendo de onde mandara vir as sementes, como preparara a terra...
Dali foram ao jardim.
- Estas flores, explicava Herculano, são minhas filhas.
Fui eu que lhes dei cores tão variadas pela combinação do pólen de muitas flores...
Depois percorreram os olivais. Herculano falava sempre, não saindo de assuntos agrícolas.
À noite voltaram para a modesta vivenda. Junqueiro manifestava-se ansioso pelo cumprimento da promessa de Herculano.
Este, percebendo a ansiedade do hóspede, disse-lhe:
- Já lhe mostrei as minhas obras novas, meu amigo. Confesse que ninguém, em Portugal, come melhor, repolho do que eu...
Junqueiro ficou desapontado!


*
Ilustração: Foto e Arte de Joba Tridente (2014)


Boaventura Gaspar da Silva Barbosa (1855-1910), o Visconde de São Boaventura: jornalista polêmico e escritor modernista português. No tempo em que viveu no Brasil foi redator e diretor de diversos jornais, entre eles: A Província de S. Paulo (atual O Estado de S. Paulo); Jornal do Comércio; Diário Mercantil de São Paulo. É autor de: Antes de Soprar a Luz; O Balzac de S. Miguel de Seide; Reacção e Liberdade; Revérberos; O Livro de Luísa; A Pasta de um Jornalista; Pátria Amada. Gaspar da Silva traduziu Alphonse Daudet: Fromont jeune et Risler aîné e Charles Baudelaire: Poemetos em Prosa.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Silvio Romero: Racismo no Folclore Brasileiro

O trecho abaixo, escrito há mais de um século, é um parágrafo da introdução a Contos Populares do Brasil, recolhidos por Silvio Romero. No Brasil o racismo é crime inafiançável. Que se saiba há ninguém preso. O criminoso é denunciado, presta depoimento e aguarda em liberdade o julgamento. Se condenado (o que é improvável), pode recorrer ad infinitum. É, parece que nada ou pouco mudou. O título (Racismo no Folclore Brasileiro) é meu. 

NOTA: Ao reler a postagem, a fim de compreender melhor (e não comprometer!) o contexto, evitando qualquer “achismo racial”, me pareceu necessário complementar com o parágrafo anterior.



Racismo no Folclore Brasileiro

(...) Os autores diretos, repitamos, que cantavam na língua como sua, foram os portugueses e os mestiços. Quanto aos índios e negros, verdadeiros estrangeiros, e forçados ao uso de uma língua imposta, a sua ação foi indireta, ainda que real. Na formação da psicologia do mestiço, a que iam transmitindo suas tendências intelectuais com todas as suas crenças, abusões, lendas e fantasias, é que se nota o seu influxo. A ação fisiológica dos sangues negro e indígena no genuíno brasileiro explica-lhe a força da imaginação e o ardor do sentimento. Não há aqui, pois, em rigor, vencidos e vencedores; o mestiço congraçou as raças e a vitória é assim de todas três. Pela lei da adaptação elas tendem a modificar-se nele, que, por sua vez, pela lei da concorrência vital, tendeu e tende ainda a integrar-se à parte, formando um tipo novo em que predomina a ação do branco. Pertencem-lhe diretamente em nossa poesia popular todas as cantigas que não encontram correspondentes nas coleções portuguesas. como todos os romances sertanejos, muitas xácaras e versos gerais de um sabor especial. A estas criações, que chamarem0s mistas, dá-se cumulativamente a ação das três raças, e ao mestiço pertencem, como próprios, 0 langor lascivo e 0s cálidos anélitos da paixão. Quase todos 0s versos desta espécie coligimos da boca de ariscas e faceiras mulatas.

Encontra-se ainda entre nós certa tendência de ridicularizarem-se mutuamente as diversas raças. O caboclo foi, desde os tempos coloniais, o objeto de muitos motejos e lendas debicativas; era considerado o tipo da tolice e da fatuidade, a encarnação do parvo e do basbaque. O negro era, por sua vez, bem escarnecido, e o português alcunhado de maroto, galego, marinheiro, etc. Ao mestiço deu-se o nome de cabra, bode, e outros títulos malsinantes. Este estado de luta latente ainda se nos depara no folclore brasileiro.

*
Ilustração de Joba Tridente (2014)

Silvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (Lagarto, 1851 - 1914): escritor, ensaísta, crítico literário, professor, filósofo. Romero foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras em 1897 e escreveu para diversos jornais.  Silvio Romero é, entre outras obras, autor de: A poesia contemporânea e a sua intuição naturalista (1869); Contos do fim do século (1878); A filosofia no Brasil (1878); A literatura brasileira e a crítica moderna (1880);  Cantos Populares do Brasil - vol. 1 e 2 (1883); Contos Populares do Brasil (1885); História da literatura brasileira, I e II (1888); A poesia popular no Brasil (1880);  Compêndio da História da Literatura Brasileira (1906). 
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