segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Cidades Minguantes: O Olhar

Escrevi Cidades Minguantes quando participava do Projeto Comboio Cultural, que durante um ano rodou todo o Paraná, levando literatura, teatro, música, dança, às cidades mais periféricas do estado. As seis crônicas foram publicadas, originalmente, no jornal Gazeta do Povo, aqui de Curitiba, entre outubro e novembro de 2001. Postei no Falas ao Acaso em abril de 2011. Mas, como em 2014 elas finalmente servirão de base para a concretização de um antigo projeto, em fase de planejamento, decidi fazer uma nova postagem!


Cidades Minguantes: O Olhar
Joba Tridente

Viajar ao interior, como Oficineiro Cultural, mais que levar informação é acolher o desconhecido. É descer do pedestal e reler a si mesmo.

Há seis anos viajo pelo interior do Paraná, como Oficineiro Cultural de literatura e arte, mas nunca tinha ido tão longe, como recentemente, e nem visto cidades murcharem. Num artigo anterior, de mesmo título, disse que viajar ao interior, mais que levar informação, é acolher o desconhecido. É descer do pedestal e reler a si mesmo. Ao preparar esta série de crônicas, conjugando os cinco sentidos das cidades minguantes, compreendi que ir ao interior pode ser muito mais que força de expressão.

Viajar ao interior e conhecer este ser tão simples, que aos olhos viciados de capital parece ser tão outro, é preciso, antes de reler-se, acostumar-se com o avelhentado sentido do novo. É preciso deixar o olhar buscar o pouso. Sem pressa, que a pressa assusta os mandaruvás que se encasulam até mesmo nas calças do velho aposentado esquecendo-se sob a sibipiruna. O olhar apressado também assusta as douradas pétalas que o vento faz chover sobre ele, perfumando seu sono. Um olhar apressado cala os pássaros na balbúrdia habitual da colheita de grãos no asfalto. Um olhar apressado não se dá conta da lágrima que corre do olho do piá que recolhe mais um pardal atropelado na avenida e o coloca na sarjeta, junto a um montículo de flores de ipê roxo, para talvez ser carregado pela próxima chuva. Um olhar apressado não registra o engraxate amanhecendo no banco da praça, ofertado por uma antiga sapataria há muito falida, sonhando talvez como uma cidade crescente. A pressa cega-nos na simples cidade. Aí, a mão foge ligeira do besouro metalizado, o pé salta sobre a lacraia, mas a cabeça descontrolada é batizada pela rolinha.

Noutra cidade, algo familiar nem sempre está onde se espera. Excetuando a igreja, sempre plantada no meio de uma praça. O olhar capital, acostumado a catedrais, demora compreender a arquitetura interior. A alvenaria sustenta estranhas formas. A madeira apodrecida sustenta-se na fé. Crédulas ou não, as pombas dominam a frágil torre do sino, despensa farta para rapinantes noturnos. Dentro, o piso guarda as marcas dos fiéis em trilhas que rumam ao altar e ao confessionário. Sobre a pia batismal a estátua de um pombo, representando o Espírito Santo, parece olhar uma asa branca manchada de sangue, no chão ainda por varrer, bem no entreaberto da porta da torre do sino. Nessa manhã uma pomba não envelheceu.

Quando o olhar alcança enfim o pouso natural do ser tão interior é hora de se aperceber da luz que filtra o tempo. É hora do olhar se estender ao redor e conhecer a anatomia dos gestos quase imperceptíveis na sutileza. Um quase aceno da mulher. Um quase balbucio da filha. Um quase arqueio de sobrancelha do homem. Um quase tirar o chapéu do peão. Um quase sorriso do comerciante. Um quase gritar da criança. Um quase inexistente na esperança de cada um buscando respostas no olhar curioso que agora pousa querendo ouvir.

(*)
Ilustração: Fotoarte de Joba Tridente

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