quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Joba Tridente: EX


Ilustração do Poema EX de Joba Tridente

EX
ex não é vice
mas parece
vice-qualquer coisa
não é ex-qualquer coisa
mas parece

...e do mesmo mal padece

Joba Tridente: Poesia 26.11.2012 e Ilustração: 29.11.2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Franz Kafka: Aforismos



Franz Kafka: Aforismos
tradução de Silveira de Souza (*)

11/12
Diversidade de imagens que talvez se possa ter de uma maçã: a imagem do garotinho que precisa esticar o pescoço para, com dificuldade, poder ver a maçã na fruteira sobre a mesa e a imagem do senhor da casa que pega a maçã e a entrega sem restrições a seu convidado à mesa.

11/12
Verschiedenheit der Anschauungen, die man etwa von einem Apfel haben kann: die Anschauung des kleinen Jungen, der den Hals strecken muß, um noch knapp den Apfel auf der Tischplatte zu sehn und die Anschauung des Hausherrn, der den Apfel nimmt und frei dem Tischgenossen reicht.


20
Leopardos invadem o templo e bebem toda a água da pia de sacrifícios, deixando-a vazia. Isto se repete sempre. Por fim, o evento pode ser previsto e torna-se uma parte do ritual.

20
Leoparden brechen in den Tempel ein und saufen die Opferkrüge leer; das wiederholt sich immer wieder; schließlich kann man es vorausberechnen und es wird ein Teil der Ceremonie.



Franz Kafka (1883 – 1924) é autor de A Metamorfose (1915); Carta a meu Pai e Na Colônia Penal (1919); O Processo (1925) e O Castelo (1926).

(*) 28 Aforismos de Franz Kafka (tradução do escritor catarinense Silveira de Souza) – Edição (bilíngue) Virtual Book, distribuída gratuitamente na web nos primórdios do ebook. O livro foi lançado posteriormente (?) pela EdUFSC com o título 28 Desaforismos e desapareceu das páginas do Virtual Book, mas ainda é encontrado na rede. Os aforismos de Kafka também foram traduzidos por Otto Maria Carpeaux, em 1943, (Revista Sopro, 2011) e por Modesto Carone (Revista Serrote, 2009).

Ilustração: Leopard / Felis pardus. 1896.
Origem: Lloyd's Natural History: "A hand-book to the Carnivora. Part 1, Cats, civets, and mungoose"[1] by Richard Lydekker.

domingo, 25 de novembro de 2012

Joba Tridente: Calcinha Rosinha


Foto de Joba Tridente: Calcinha Rosinha - Poema Falas ao Acaso

Calcinha Rosinha

1
caiu do céu
a calcinha de florzinha
rosinha

caiu e ficou
fincada nas farpas
do arame
balangando ao vento
aos olhos dos vizinhos
velhos com seus velhos olhos
sem saber a dona

2
caiu a calcinha rosinha
estranho ninho
assustando os passarinhos

3
balanga pra lá
desbotando as florzinhas
rosinhas

balanga pra cá
sem dona
a calcinha

4
a chuva molha
o vento lambe
a poeira emporcalha
as bitucas furam
a calcinha
que resiste

... não mais inocente

Joba Tridente: 24.10.2012 - 24.11.2012
Foto de Joba Tridente: 30.11.2012


sábado, 24 de novembro de 2012

José Craveirinha: Fábula


Não sou muito ligado a datas. Para mim todo dia é dia de todo dia e do que e de quem quiser o dia. Como havia prometido publicar algo da Literatura Africana, achei apropriado aproveitar a Semana da Consciência Negra, para começar. Assim, a cada dia (até 24 de novembro de 2012) postarei um conto, um poema...


Fábula

Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.

*

José João Craveirinha (1922 – 2003) nasceu em Maputo, Moçambique.  Considerado o maior escritor moçambicano, o primeiro a receber o Prêmio Camões, iniciou-se no jornalismo no Brado Africano e se firmou colaborando com diversos veículos de informação. Craveirinha esteve preso entre 1965 e 1969, pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), na Cela 1, com Malangatana e Rui Nogar. O escritor utilizou vários pseudônimos: Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa. Entre suas obras destacam-se: Xigubo (1964); Cantico a un dio di Catrame (1966); Karingana ua karingana (1974);  Cela 1 (1980); Maria (1988);.

Ilustração de Joba Tridente

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

João Maimona: Poema para Carlos Drummond de Andrade


Não sou muito ligado a datas. Para mim todo dia é dia de todo dia e do que e de quem quiser o dia. Como havia prometido publicar algo da Literatura Africana, achei apropriado aproveitar a Semana da Consciência Negra, para começar. Assim, a cada dia (até 24 de novembro de 2012) postarei um conto, um poema...


Poema para Carlos Drummond de Andrade

É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio do teu caminho.

Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet das palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.

Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.

Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste uma pedra
no meio do caminho.

No caminho doloroso das coisas.

*

João Maimona (1955) nasceu em Kibokolona, Angola. Escritor, ensaísta e crítico literário licenciou-se em Medicina Veterinária. Maimona é membro fundador da Brigada Jovem de Literatura do Huambo e da União dos Escritores Angolano. O premiado escritor é autor de Trajetória Obliterada (1985); Les Roses Perdues de Cunene (1985); Traço de União (1987, 1990);  Diálogo com a Peripécia (1987); As Abelhas do Dia (1988, 1990); Quando se ouvir os sinos das sementes (1993); Idade das Palavras (1997);

Ilustração de Joba Tridente

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Viriato da Cruz: Serão Menino


Não sou muito ligado a datas. Para mim todo dia é dia de todo dia e do que e de quem quiser o dia. Como havia prometido publicar algo da Literatura Africana, achei apropriado aproveitar a Semana da Consciência Negra, para começar. Assim, a cada dia (até 24 de novembro de 2012) postarei um conto, um poema...


Serão Menino

Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do ceu,
de volta das estrelas, quais fogareus,
os anjos escutam parábolas de santos...

na noite de breu,
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantus...

"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ..
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...

("não tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"-não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
-luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão - dê-se à corça."

Mas quando lá fora
o vento irado nas frestas chora
e ramos xuxualha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:

- Eué

- É cazumbi...

E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitende -
a gente grande com gosto ri...

Com gosto ri, porque ela diz
que o cazumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres busca, em negra noite,
essa outra voz de cazumbi
essa outra voz - Felicidade...

*

Viriato Francisco Clemente da Cruz (1928 - 1973) nasceu em Kikuvo, Porto Amboim, e estudou em Luanda. Viriato, cuja obra tem forte apelo regionalista, foi um dos grandes impulsionadores da poesia angolana, nas décadas de 1940/1950. Autor engajado e um dos líderes da luta pela libertação de Angola, a poesia de Viriato da Cruz está dispersa em várias publicações e, acredita-se completa, em uma antologia de 1961: Poemas.

Ilustração de Joba Tridente

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Isaac Zita: Os Molwenes



Não sou muito ligado a datas. Para mim todo dia é dia de todo dia e do que e de quem quiser o dia. Como havia prometido publicar algo da Literatura Africana, achei apropriado aproveitar a Semana da Consciência Negra, para começar. Assim, a cada dia (até 24 de novembro de 2012) postarei um conto, um poema... 



Os Molwenes

Com a mão estendida e bem aberta, a cega está sentada no chão de cimento e move sem descanso as pálpebras desprovidas de pestanas, pondo a descoberto, deliberadamente, as cicatrizes vermelhas que figuram no lugar dos olhos.

Um homem idoso para à frente dela, olha para as horríveis orbitas e mete uma mão no bolso de onde extrai uma moeda de prata.

A seguir, fica alguns instantes a contemplá-la, indeciso, talvez pensando na alegria que com os seis bolos comprados com aquela moeda, poderia proporcionar aos netos quando chegasse a casa.

Uma voz interior segreda-lhe que deve dar a moeda de prata porque é uma boa ação e lá no Céu, Deus-Todo-Poderoso, além de aumentar os seus dias de vida, irá perdoar todos os pecados que cometeu, até mesmo aqueles que já tinham esquecido; outra voz, entretanto, diz-lhe que o melhor será comprar os bolos e fazer essa surpresa aos netos, que por essas e por outras, cada vez o adorarão mais.

Por fim, evitando olhar para os olhos da cega, estende a mão e entrega-lhe uma moeda que ela, sofregamente, se apressa a guardar na capulana rota e suja, com uma rapidez inesperada numa invisual.

Fascinado, o homem de idade permanece de mão estendida e agora vazia, comovendo-se quando a ouve balbuciar um doce "Obrigado", ecoando como o som cristalino da água a deslizar num regato celestial.

Quando o homem se refaz do encantamento, já a cega estende de novo a mão e diz um novo - "Bom dia", continuando sempre a bater com as pálpebras sem pestanejar.

O homem idoso recomeça a caminhar, pressentindo uma lágrima de emoção a querer soltar-se dos olhos e a voz de Deus-Todo-Poderoso a confirmar que os seus pecados já tinham sido absolvidos e prometendo, se ele continuasse a ser assim bonzinho, enviar mais cedo ou mais tarde, uma pomba direita ao seu coração.

...

- Avô - consegui interromper eu, finalmente - Porque é que Deus é sempre branco e Satanás, sempre negro? É assim que o padreca ensina...

O avô mostrou-se pela primeira vez perturbado e limitou-se talvez por isso, a olhar alternadamente para a pele negra que cobria os nossos rostos e mãos. Depois, levantando-se ruidosamente, apenas disse:

Já vai alta a noite. Vamos dormir, meu filho...

*

Isaac Mario Manuel Zita (1961 - 1983) nasceu em Maputo, Moçambique. Lecionou por 2 anos e frequentava o curso de Professores de Português, para as 7ª, 8ª e 9ª classe, quando morreu, com apenas 22 anos. Sua obra mais conhecida é Os Molwenes. No site Memória da África constam, também: A Decisão; A visita; Diário de um professor estagiário; Gurué maravilhoso planalto : crónica de uma viagem; O fugitivo.

Ilustração de Joba Tridente

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Geraldo Bessa: O menino negro não entrou na roda


Não sou muito ligado a datas. Para mim todo dia é dia de todo dia e do que e de quem quiser o dia. Como havia prometido publicar algo da Literatura Africana, achei apropriado aproveitar a Semana da Consciência Negra, para começar. Assim, a cada dia (até 24 de novembro de 2012) postarei um conto, um poema... 


O menino negro não entrou na roda

O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas - as crianças brancas
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas, gargalhadas francas...

O menino negro não entrou na roda.

E chegou o vento junto das crianças
- e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.

O menino negro não entrou na roda.

Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus voos, cantando seus hinos...

O menino negro não entrou na roda.

"Venha cá, pretinho, venha cá brincar"
- disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino branco já não quis, não quis...

O menino negro não entrou na roda.

O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar cego,
ficou só, calado com voz de morto.

*

Geraldo Bessa Victor (1917 - 1985), escritor, poeta, ensaísta e jornalista angolano, é natural de Luanda, onde concluiu seus estudos. Na década de 1950, em Lisboa, licenciou-se em Direito e, além do exercício da advocacia, ganhou reconhecimento com a publicação de artigos e crónicas em vários jornais angolanos, entre os quais o jornal A Província de Angola, tendo feito parte do movimento "Cultura I" e da revista Mensagem. Geraldo Bessa cantou e exaltou a cultura africana e mais concretamente a angolana. O menino negro não entrou na roda e Kalundu foram os dois primeiros poemas selecionados para uma antologia, em 1958, por Mário de Andrade. Em 2001, a Editora Imprensa Nacional - Casa da Moeda compilou e editou toda a sua obra poética. Fonte: Wikipédia.

Ilustração de Joba Tridente 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Conto Africano: Uma Ideia Tonta



Não sou muito ligado a datas. Para mim todo dia é dia de todo dia e do que e de quem quiser o dia. Como havia prometido publicar algo da Literatura Africana, achei apropriado aproveitar a Semana da Consciência Negra, para começar. Assim, a cada dia (até 24 de novembro de 2012) postarei um conto, um poema...


Conto Africano: Uma Ideia Tonta

Um dia a hiena recebeu convite para dois banquetes que se realizavam à mesma hora em duas povoações muito distantes uma da outra. Em qualquer dos festins era abatido um boi, e sabe-se que hiena é especialmente gulosa. - Não há dúvida de que tenho de assistir aos dois banquetes, pois não quero desconsiderar os anfitriões. Também as oportunidades de comer carne de boi não são muitas... mas como hei de fazer, se as festas são em lugares tão distantes um do outro? A hiena pensou, pensou... e, de repente, bateu com a mão na testa. - Descobri! Afinal é simples... - disse ela, muito contente coma sua esperteza. Saiu à pressa de casa. Assim que chegou ao local donde partiam os dois caminhos que levavam aos locais das festas, começou a andar pelo caminho que ficava do lado direito com a perna direita e pelo caminho que ficava do lado esquerdo, com aperna esquerda. Pensava chegar deste modo a ambas as festas ao mesmo tempo. Mas começou a ficar admirada de lhe custar tanto caminhar dessa maneira. E fez tanto esforço, que se sentiu dividir em duas de alto a baixo. Coitada, lá a levaram ao médico que a proibiu, desde logo, de comer carne de boi durante um mês. É muito tonta a hiena!

Ilustração de Joba Tridente – 2012


domingo, 18 de novembro de 2012

Literatura Africana: Do Rovuma ao Maputo - 1



Vamos Cantar, Crianças

Antes de conhecer Mia Couto eu conhecia a literatura africana.  Antes de saber que Mia Couto é branco eu sabia da literatura de autores africanos negros. Na cor, na pele, na voz, no grito do verbo dei de cara com a literatura africana nos “primórdios” da web, através de sites africanos que já foram soprados para longe.

Bons tempos aqueles em que a rede era um fascinante arquipélago com ilhotas pululando culturas deliciosamente estranhas. Foi mergulhando naquele admirável mundo novo que descobri a rica literatura em verso e prosa da África. Salvava uma coisa aqui e outra acolá. Muito se perdeu disquetes afora. Com o tempo aprendi a fuçar feito porco atrás de trufa. Nesse cavucar encontrei uma rara Antologia de Autores Africanos: Do Rovuma ao Maputo, organizada por Carlos Pinto Pereira, em 1999, a partir de arquivos esparsos na web. Para meu espanto a Antologia trazia algumas pérolas que admirara antes e, para minha felicidade, alguns dados biográficos de alguns autores.

Não sou muito ligado a datas. Para mim todo dia é dia de todo dia e do que e de quem quiser o dia. Como havia prometido publicar algo da Literatura Africana, achei apropriado aproveitar a Semana da Consciência Negra, para começar. Assim, a cada dia (até 24 de novembro de 2012) postarei um conto, um poema...

Como hoje é domingo, começo com duas canções extraídas do livro Vamos cantar, crianças - Cancioneiro - Vol.1 Edição do Instituto Nacional do Livro e do Disco, Maputo, 1981.


O passarinho e os outros animais
(Cabo Delgado)

O elefante
o elefante passeia o passarinho
que lhe tira todos os bichinhos

A palapala
a palapala passeia o passarinho
que lhe tira todos os bichinhos

O crocodilo
o crocodilo passeia o passarinho
que lhe tira todos os bichinhos

O passarinho
o passarinho voa bem baixinho
come muito e volta para o seu ninho


*

A dança do jacaré
(Ilha de Moçambique)

Eu, Maria, fui lavar os pés
lá no rio onde mora o jacaré

Paro e vejo: quem vem dançar?
É mamã que traz o Tomé p'ra tocar

Toca, toca bem, primo Tomé
Quero ver como dança o jacaré

Ah! o bicho a água engoliu
deu a volta, saltou e logo tossiu

Ei! Já chega meu primo Tomé
Acabei de lavar agora o meu pé

Ilustração de Joba Tridente - 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Helena Kolody - 100 anos - 11


Há explícito nos poemas mais longos de Helena Kolody e, por vezes, oculto nos poemas curtos, um forte lirismo, uma dor pungente que tange e perturba o leitor acostumado às suas belas imagens lúdicas. 

Inquietações: O poeta é uma alma sensível, captando seus próprios sentimentos, bem como os acontecimentos do mundo que ferem a sensibilidade. Desde “Paisagem Interior”, identifiquei-me com a alegria dos venturosos e deslizei dolorosamente nas lágrimas do infeliz. Helena Kolody.

Inquietação

O ritmo febril de um sangue moço
Lateja em minhas fontes.
As tendências recalcadas
Rumorejam surdamente,
Como larvas represadas,
Eu não sei que perdidas regiões do inconsciente.
Não possuo mais a antiga serenidade
De alta montanha nevada.

O amor quis envolver-me
E eu me esquivei.
Essa tristeza que me oprime
Tornou-se mais espessa
E pesou mais o meu destino de ser só.

O esforço gasto em árdua luta
Partiu não sei que amarras
Que me prendiam à vida.
Meu espírito, desarvorado,
Deixa-se vagar ao sabor da corrente.
Não quer aportar.


Há explícito nos sonetos de Florbela Espanca, por vezes, a mesma dor pungente, a comiseração que nos tira o chão e nos torna impotentes diante da ausência do amor. Em ambas a mesma inspiração para criar uma “poesia para cortar os pulsos”. No ano (1930) em que Florbela nos deixava, Helena ganhava seu espaço em jornais e revistas. (*)

EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca (1894 - 1930): escritora de verso e prosa, tradutora. Autora de famosos sonetos intensos, apaixonados e profundamente melancólicos, publicou duas antologias em vida: Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923). Após a sua morte foram lançadas: Charneca em Flor (1931), Juvenília (1931), Reliquiae (1934) e Sonetos Completos (1934).

(*) Helena Kolody começou a escrever muito jovem, por volta dos 13 anos, mas somente a partir de 1930 seus poemas foram publicados em jornais e revistas. A revista Marinha, editada em Paranaguá-PR, foi a que mais se dedicou à sua poesia.

Ilustração de Joba Tridente - 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

Joba Tridente: EU



Todos temos fases. Esta é daquela dos RetrATOS

Eu

Eu sou hoje cada dia um
O humor é a minha rosa dos ventos
O ontem se distancia já tardio
Fragmentando a memória.

Poesia (26.03.2012) e Ilustração (11.11.2012) de Joba Tridente

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