segunda-feira, 23 de abril de 2018

Ana Mariano: Canção para arrumar a mesa


Em 2016 foi lançando o livro Blasfêmeas - Mulheres de Palavra, reunindo 64 poetas atuantes na literatura contemporânea brasileira. Segundo a escritora Marília Kubota, que juntamente com Rita Lenira de Freitas Bittencourt organizou a edição: “Com esta antologia, queremos apresentar um panorama de vozes poéticas femininas, no qual percebemos a diversidade do que é “ser mulher”. Há vozes que se alinham ao discurso modernista, com predominância do dizer fragmentário e do tom coloquial, o tom da “poesia de mulher” de Adélia Prado; há o resgate de formas clássicas, ao modo de Cecília Meirelles, e também as que dialogam com a visualidade proposta pela poesia concreta. Grande parte destas autoras é de uma geração que iniciou sua vida literária através da internet, escrevendo em blogues ou sites; outras, começaram em áreas mais afins à literatura, como o jornalismo, a publicidade, as artes visuais, as atividades acadêmicas. Minimalistas ou verborrágicas, líricas ou satíricas, cotidianas ou metafísicas, elas compõem o panorama que define a poesia de mulher contemporânea: a palavra, hoje, é muito mais feminina.”

Das 64 autoras selecionei sete. Um poema de cada..., que você conhecerá em sete postagens. Comecei com Branca envelhecena neve, de Adriane Garcia, e sigo com Canção para arrumar a mesa, de Ana Mariano.


                          
Canção para arrumar a mesa
Ana Mariano

De minha mãe, eu sei, herdei a calma,
os pés no chão, a luz dos candelabros.

Mas quem legou as mãos ardendo em brasa?
Quem semeou em mim esta semente,
a cada outono florescendo em dálias?

Era tão certa a casa em que vivíamos,
seu lúcido equador, as costas largas,
bonança horizontal, pompa e decoro.

Sobre a toalha, o rol de cicatrizes:
à esquerda os garfos, à direita as facas
no centro, o prato, dentro, o guardanapo.

Onde coloco, mãe, o desconforto,
essa vontade de afiar as garras?

*
ilustração: joba tridente.2018


Ana Mariano (Porto Alegre/RS) tem poemas, contos e ensaios publicados em revistas literárias e coletâneas como Antologia dos contistas bissextos (L&PM) e 100 Autores que você precisa ler (L&PM). Publicou o livro de poemas Olhos de cadela (L&PM, 2006), finalista do Prêmio Açorianos. Seu romance Atado de ervas (L&PM, 2011) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura – categoria melhor livro do ano de autor estreante.

Blasfêmeas - Mulheres de Palavra foi editado pela Casa Verde.

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